A biotecnologia muda o mundo – Parte 1

Saiba como surgiu a moderna biotecnologia e como a modificação genética deu início a uma revolução em várias áreas da ciência

Você provavelmente já ouviu falar de transgênicos. Pois toda a discussão em torno desses alimentos é apenas o lado mais barulhento de um incrível conjunto de conhecimentos acumulados durante milênios, desde que sumérios e babilônios descobriram que a fermentação de grãos de cereais resultava em uma bebida alcoólica, há coisa de 6 mil anos antes de Cristo. Trata-se, simplesmente, da biotecnologia, que em sua fase moderna, principalmente nos últimos 60 anos, chegou ao estágio da manipulação de genes para criar “milagres” como medicamentos derivados da recombinação de DNA, plantas resistentes a insetos e tolerantes a herbicidas e muito mais.

A biotecnologia é, de fato, fascinante, na medida em que abre perspectivas inteiramente novas para o futuro do homem e sua relação com a vida e o planeta. Por isso mesmo é motivo de debate e desperta tanto interesse. A transgenia é responsável, por exemplo, pelo desenvolvimento da insulina que hoje usamos nos tratamentos contra diabetes. Até o final dos anos 1970, o hormônio usado na medicina era de origem animal e com frequência causava reações alérgicas. Graças à intervenção da biotecnologia, microrganismos transgênicos passaram a produzir uma insulina idêntica a humana, salvando milhares de vidas.

As bases para o desenvolvimento dessa insulina foram lançadas em meados da década de 1950, quando os cientistas identificaram a estrutura do DNA. Mais 20 anos se passaram até que fossem conhecidas as enzimas de restrição, capazes de “cortar” trechos específicos de DNA que depois poderiam ser reintroduzidos em outro organismo vivo. A partir daí foi possível desenvolver a metodologia de recombinação do DNA para, por exemplo, inserir genes humanos em um microrganismo para que ele produzisse uma insulina exatamente igual à do nosso pâncreas, com alto grau de pureza, sem reações adversas.

Na agricultura, o primeiro produto transgênico foi um tomate, aprovado em 1994. Dois anos depois, foi aprovada nos Estados Unidos a primeira soja transgênica, tolerante a um tipo de herbicida, que no Brasil recebeu aprovação para cultivo em 1998. A bióloga Adriana Brondani, diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), uma associação sem fins lucrativos composta por cientistas de universidades e instituições de pesquisa públicas e privadas, explica que a modificação genética em plantas contribui para superarmos os desafios da agricultura. “Entre esses desafios estão a adaptação da planta ao solo, para que ela possa ser cultivada em regiões onde normalmente não é viável cultivá-la, e a tolerância a determinadas doenças e pragas. A biotecnologia moderna nos ajuda a desenvolver características que nos auxiliem nessas adaptações”.

Segundo ela, existem diversas estratégias para modificar geneticamente uma planta, dentre as quais duas merecem destaque. “No melhoramento genético clássico, fazemos cruzamentos entre indivíduos da mesma espécie e selecionamos a prole com as características mais interessantes; no processo de transformação genética, inserimos os genes que expressam as características de interesse no DNA alvo por meio de técnicas de biologia molecular.” A doutora em ciências biológicas revela que, em geral, recorre-se ao segundo método quando é impossível ou inviável conseguir o mesmo resultado pelo primeiro.

Depois da soja, já em 2005, a segunda cultura transgênica aprovada no Brasil foi o algodão, modificado para ter resistência a insetos. Em 2007, foi aprovado o primeiro milho transgênico. “Esse intervalo de sete anos, entre 1998 e 2005, está relacionado à revisão da nossa lei de biossegurança”, afirma Adriana. Ela lembra que, nesse período, houve outros avanços, como várias vacinas de uso em animais e em humanos. Em 2011 o Brasil aprovou um feijão transgênico que ainda não está no mercado e, em 2015, um tipo de eucalipto geneticamente modificado. Na sequência, foi aprovado até mesmo um mosquito transgênico – mas este fica para o próximo capítulo dessa história.

Por Bayer Jovens

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